domingo, 7 de setembro de 2008

O Galinheiro: Sistema Alternativo de Criação de Aves Caipira

Não tenho mantido a disciplina que me propus, para alimentar esse blog. Preciso melhorar isso. Mas tem sido tanto trabalho, que já me peguei repetindo inúmeras vezes o bordão de que "ser fazendeira envolve muita burocracia". Quando repito uma frase cinco ou seis vezes, paro para repensar um pouco, percebendo que algo maturou e que está na hora de evoluir à próxima etapa.

Mas a verdade é que outras novidades aconteceram. Saiu minha bolsa de pesquisa do CNPq, e isso me aproxima da UFPI, onde estarei dando aulas. Isso também envolve um bocado de burocracia, na fase atual, em que tenho que me desligar da UEMA onde dei aulas de antropologia no último ano e meio... Vai ser toda uma nova etapa na minha vida! Um passo mais próximo do objetivo que estabeleci para mim mesma há uns dez anos atrás, sentada à janela de minha querida comadre Cotinha, olhando para as belas copas outonais do Central Park em Nova Iorque: ser professora universitária "quando crescesse". Apesar do dinheiro ser bem pouco, nunca um novo emprego foi tão carinhosamente recebido por essa mulher aqui!

Mas voltando à fazenda: inauguramos nosso aviário. Construímos em uma área vizinha à minha casa, onde havia uma tapera (casa caída), sombreada por cajueiros e que já tinha um cercado. Foi um mês de trabalho de dois homens, seguindo o desenho do Firmino Barbosa, engenheiro da Embrapa Meio Norte, que tem desenvolvido esse modelo de criação racional de galinhas caipiras (SACAC: Sistema Alternativo de Criação de Aves Caipiras). Nesse sistema, tudo
e desenhado para o agricultor familiar, sem grandes despesas e utilizando o máximo de insumos locais. Merece um prêmio o Dr Firmino, que com o seu eterno bom-humor de Pernambucano radicado em Teresina gosta de ser chamado de "Firmino Galinha". Conheci-o pela televisão, e fui atrás. Ele prontamente se ofereceu para me orientar. Aliás, a Embrapa Meio Norte tem sido uma fonte maravilhosa de informação e assistência. Todos lá são simpáticos às minhas intenções agro-ecológicas.

O sistema de Firmino se propõe a fornecer frangos caipiras de 1,8 a 2 kg em 120 dias, em contraste com as granjas convencionais que fornecem frangos deste tamanho em 45 dias. Mas os frangos caipiras serão alimentados com rações produzidas quase que totalmente na área, sem os concentrados misteriosos e hormônios industrializados... e - espero - morrem menos por serem aves nativas, de raças mais resistentes. Aliás, foram quatro as raças cuidadosamente selecionadas por Firmino. Ele está me fornecendo a "Nordestina" (as outras são Teresina, Graúna Azul, e Bejeiro). Nós seremos criadores da Nordestina/Buriti Doce. Esta tem boa postura e crescimento. Por enquanto já recebemos 33 pintinho s e perdemos apenas unzinho... A idéia é ir pegando uns 20 por semana na Embrapa, até completar os quadros.

O aviário é construído de forma que possamos acomodar pintinhos de idades diferentes, cada qual com o seu recinto e um piquete próprio à suas idade. Desta forma, os pintinhos de 7 a 30 dias tem um piquetezinho de 1 metro quadrado, os de 30 a 60 dias ciscam em um piquete de uns 10 metros quadrados, os frangos de 60 a 120 dias têm uma área bem maior para ciscar, debaixo dos cajueiros e pegando sol, e as matrizes poedeiras e chocas com seus garbosos e valentes galos (um galo para cada 12 poedeiras) terão a sua área própria também. Mas todos ciscam, todos andam soltos de dia por estes piquetes que Firmino recomenda sejam trasnformados em pomares, embora tenham sua vida familiar profundamente alterada, vivendo longe das mães protetoras e acolhedoras...

Isso ao arrepio de Seu Anísio, que sempre amou a "criação", mas livre e solta pelo quintal. Temos tido que negociar carinhosamente com o meu querido velho. De inicio ele dizia que não iria cuidar do galinheiro de jeito nenhum (transpareceu, por trás da recusa, alguma experiência pretérita pela qual o patrão desconfiou de sua honestidade por conta da morte de frangos). Agora já está, como todos nós, apaixonado pelos bichinhos que, quando chegam, ficam durante alguns dias no "jacá berçário" em sua casa, antes de serem transferidos para o aviário.

Além disso, para não aborrecer ao meu mestre, as galinhas de terreiro continuam em torno das casas, a alegrar o dia. Não podemos imaginar o universo de Anísio sem suas aves no entorno da casa, sem as rotinas que o mantém tão saudável (acordar e chamar os bichinhos, alimentar, cuidar, conhecer um por um, se divertir com os casos lúdicos e políticos diários e peripécias nas relações entre perus e capotes). Ontem fiquei meio emocionada ao ver como nossa criação de terreiro tradicional prosperou, em comparação ao terrível ano passado (o ano que saturno fez quadratura com tudo que havia no meu mapa - tudo foi difícil, nem os pintos escaparam!). As raposas comiam tudo o que havia: pintos, capotes, peruzinhos.... Este ano temos 10 capotinhos andando juntos pelo terreiro, já rapazes, 4 peruzinhos já grandinhos , e todas as galinhas estão prosas andando pelo terreiro com seus pintinhos (um delas tirou quinze!).

Compramos uma forrageira e estou colecionando os elementos para fazermos nossa própria ração orgânica. O Firmino é um profundo estudioso dessa questão, e inclui elementos como folhas de mandioca e a torta do buriti em suas receitas. Essa será a parte mais interessante de todas, acho. Quero ser auto-suficiente nessa área!

Agora, não vamos nos esquecer de que um dos principais motivos para criar galinhas é a obtenção do estrume para alimentar nosso sistema agrícola, hein? A palha de arroz que fica no chão do galinheiro depois será adicionada, junto com o estrume, à mistura de carvão e composto que será adicionada ao plantio de abacaxi e urucum.

Escrevo sobre isso na próxima.

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