domingo, 5 de outubro de 2008

BIOCHAR - ENFIM CHEGOU A HORA

O ritmo do blog é lento... uma vez por mês! mas vamos tentar manter ao menos isso! Afinal, estou em uma das fases mais ativas (ainda) dos últimos tempos, com o início das atividades na federal do Piauí e com a pesquisa sobre a cajuína que se iniciou esta semana, para o IPHAN! Além disso, estive em Axixá, no Maranhão, para concluir a compra de 3,6 toneladas de óleo de andiroba para ser vendido para a Aveda, nos EUA. Mais uma vez foi um sucesso. A mulherada em Axixá está animada, e têm conseguido diminuir a depredaçào das matas de andiroba na região. Mas voltando à fazenda...

Durante o mês de outubro, estaremos preparando um experimento com a introução de biochar ao solo. O que é o Biochar? É carvão vegetal usado como insumo agrícola. O estudo do biochar nasceu da observaçào da Terra-Preta-de-Índio, identificada em diversos pontos da Amazônia brasileira nas decadas de 20 e 30. A TP consiste em uma mistura de resíduos de carvão, restos de peixe e pedaços cerâmica antigos, indicando ter sido o loco de aldeias abandonadas. Essa Terra Preta apresenta qualidades impressionantes de fertilidade e troca catiônica, chegado a se expandir 1 centimetro por ano. Isso significa que uma camada de 20m cms de TP retirada de um determindo lugar, se recompões em 20 anos!

Descobri uma corrente de estudiosos do solo na internet, que se organizam em rede para promover sua utlização tanto para o melhoramento do solo quanto como uma espécie de panacéia geral para os problemas de mudança climática... Existem diferentes listas de discussão como a IBI (um grupo um tanto excessivamente loquaz... mas muito boa informaçào surge daí). Os principais pesquisadores acadêmicos são Johannes Lehmann (Cornell) e Cristopher Steiner (alemão mas acredioto que em uma universidade holandesa?). Os livros publicados o ano passado e anterior sào caríssimos (US$ 150,00), mas muito bem feitos.

O Dr Lehamnn tem mais um livro no forno, pronto para ser publicado, e me pediu uma pequena colaboração para descrever o método de "queimada de toco vivo" que utilizamos, e essa colaboração resultará em um box neste novo livro.

Quando estavamos nos preparando para abrir uma área de 15 hectares para o plantio do urucum, meu técnico sugeiru que usássemos o fogo. Eu reagi, pois isso feria completmente meus preceitos agro-ecológicos e inclusive, os padrões de certificaçào do IBD. Mas Ronaldo insistiu bastante e eu acabei por prestar atenção e finalmente por concordar com o experimento. Uma área de aproximadamente 9 hectares foi aberta desta forma, enquanto7 hectares foram derrubados mas não queimados. Convidamos lideranças locais de assentamentos e vizinhos para assistir ao trabalho para replicar a tecnologia. Uma equipe da Brigada do Fogo do IBAMA acompanhou os trabalhos desde a etapa do planejamento. Essas reuniões de planejamento ajudaram a determinar medidas de segurança que previnissem o fogo de se espalhar para outras áreas: queimar apenas a partir das 4 horas; queimar por etapas menores, todas aceiradas individualmente; nunca queimar sozinhos, mas sempre em grupo; contar com o equipamento de abafar o fogo usado pelo IBAMA (abafadores com largas pás de borracha na ponta).

Resumidamente, ao invés de aceirar (limpar um cordão de segurnça no entorno da área) e queimar apenas, nos aceiramos, depois escolhemos as principais árvores que queríamos manter, e ao efetuar a derrubada, permitimos um broto em cada uma destas, aceirando em seu entorno para protege-la do fogo. Além disso (aí é que está a maior diferença), retiramos toda a madeira que poderia ser utilizada posteriormente em pequenas construções rurais, e tamém retiramos toda a madeira que poderia ser usada para a preparaçào de carvão. Isso foi um processo caro que não é facilmente replicado pelos agricultores familiares da região pois envolve um custo inicial em diárias maior. No entanto, conseguimos demonstrar que - a preços locais - o carvão produzido teria pago o valor gasto nessas diárias extras, tranquilamente, e superado-o se tivessemos vendido fora da época das queimadas, obtendo um preço maior. Assim, ao invés de slash-and-burn, a operação se trasnformou em slash-and-char. Eu acabei com uma quantidade de uns 700 msacos de carvão vegetal estocados que, a princípio, pensei que vederia para me ajudar a minimizar os custos da operação.

Os trabalhadores tradicionais (haviam 4 famílias parceiras nesta terra, fazendo seus próprios roçados de milho, arroz e feijão, mas que cuidariam dos meus pés de urucum nas respectivas áreas plantadas por eles) criticaram nosso método, considerando-o muito dispendioso. Eles teriam queimado tudo e depois separado as amdeiras que poderiam ser aproveitadas para caeiras de carvão. Os dois contratados para formar as caeiras eram os mais críticos, torcendo o nariz para a novata aqui, tentando fazer a soma nos dedos... Mas como mantemos o controle contábil das diárias investidas, pudemos de fato mostrar que apenas com o dinheiro angariado com o carvão teríamos pago todo o serviço da broca. Para terminar de provar isso, pude mensurar uma área pequna que não tivemos tempo para limpar da forma planejada, que acabou envolvendo muitas diárias de coivara, um serviço que queima de resíduos posterior à queimada, que se mostrou bastante caro também.

Desta forma, o investimento no preparo do solo foi bem menor para mim, com a parceria com as quatro famílias (que se animaram bastante com o trabalho, tiveram uma boa safra e passaram por um processo de aprendizado) e a queimada controlada, mas houve alguns benefícios ambientais também. O fato de termos tirado tanta madeira da área, fez com que o fogo fosse bem menos lesivo à vida nativa do solo, para começar. As árvores preservadas rebrotarão com uma rapidez relativamente alta nas novas condições. Se eu tivesse usado um trator de esteira ou grade, por exemplo, teria revirado o solo de uma forma que acho menos "respeitosa", destruindo a frágil estrutura que existe. Teria, também, tido que utilizar insumos quimicos que não são aceitos pela certificação orgânica.

Agora, o pulo do gato foi a descoberta dessa linha de pesquisa do biochar. Enquanto eu "segurava" o carvão estocado, fui lendo sobre as vantagens da utilização do mesmo no solo. O carvão parece ser o ingrediente principal da Terra Preta de Índio, pois sua estrutura física altamente porosa proporciona uma "morada" para as multidões de fungos e bactérias que compões a vida nativa do solo. Se adicionado diretamente à tera, por exemplo, ele "convida" essa vida nativa a ocupar seus milhões de poros confortáveis e aconchegantes, e promove, incialmente, o efeito inverso pois "retira" os serezinhos da atividade de liberar sais minerais apra as plantas locais. Mas se adicionamos o carvào "junto"com altas doses de N como compostos, esterco, etc, já o aplicamos "carregado" e, portanto, pronto para promover o festejo dos bichinhos no solo.

Os experimentos efetuados entre o Dr Steiner, o Dr.Lehmann e nossos engenheiros da EMBRAPA de Manaus, registraram o estonteante aumento de produtividade de 880% por cento no sorgo que recebeu a adiçào do carvão JUNTO COM NPK. Nós, que não podemos utilizar este adubo químico em nossas terras orgânicas, estaremos adicionando um composto feito a partir de palha de arroz e esterco de gado, regado com urina de vaca; outros quadros experimentais receberam um pouco de fosfato natural de rocha, e estou agora fazendo uma tentativa de trazer cabeças de sardinha do litora de ICATU para cá para adicionar a alguns lotes experimentais.

Assim, nesta etapa, meus dois homens (tiv eque dispensar um bocado de gente recentemente por falta de grana!) terminam de fazer a cerca que falatava na fazenda, enquanto nós juntamos montes de estrume, palha de arroz, e carvão que está sendo pilado, para nos prepararmos para adicionar ao solo de nossa roça de toco, antes mesmo de roçar o mato que crescu durante a seca. estaremos efetuando o experimento em duas áreas diferentes: na "minha", uma área grande, de forma intuitiva. Na área "da embrapa", onde dois engenheiors estào promovendo um experimento específico, com um grande controle de amostras do solo etc.

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