Não tenho dúvidas de que chegou a hora de escrever... o ritmo do meu cotidiano continua louco demais, e não pego o ritmo da escritura... Mas estou pra estourar, e se não começar a escrever não sei onde vou encontrar a válvula de escape de que preciso agora...
Como tentar explicar o que estou vivendo? Como explicar que sou uma mulher carioca de 51 anos que se mudou para o Piauí, para tocar uma fazenda no interior do Maranhão...?? Larguei minha família linda. Que família linda, meu Deus.... A casa enorme e maravilhosa que construí em Niterói para viver com essa família linda... e vim tocar uma fazenda no Nordeste.
Não sou agrônoma. Sou antropóloga. Andei muito bem empregada até o mês passado... Fui consultora de uma empresa de cosméticos americana (Aveda) que me pagou para viajar pelo interior do Brasil e pesquisar matérias primas naturais que incorporasse em seus cosméticos. Com isso vivi os melhores anos de minha vida profissional... conheci a floresta acreana, trabalhei por dez anos com a tribo Yawanawá, com as quebradeiras de coco de Maranhào, com o Professor Matos no Ceará, que luta pela democratização da saúde no Brasil... Mas há 5 anos, a empresa foi vendida para uma multinacional americana, deixando de ser uma empresa familiar que pertencia a um homem - um amigo excêntrico em quem sempre confiei. Desde entào entrei em um processo de saída, de afastamento. Usei da flexibilidade e jeitinho brasileiro para nào sair, mas investindo bem pouco no trabalho. mas meu coraçào nào estava mais nesse emprego. Foi o aviso prévio mais longo de que tenho notícia! Uma acomodação das partes. Eles, sabendo da importância do trabalho que fiz para eles, foram me substituindo por partes, sem apelar para confrontações abertas, só me excluindo paulatinamente... Eu, fiz meus documentários, construí a estrutura básica da fazenda... Não tenho de forma alguma como reclamar. Aprendi muito, tive a oportunidade de encontar o meu destino através deste emprego. Conheci o Brasil. Conheci o movimento social. Pude contribuir com a luta de várias famílias por uma renda digna.
Foram anos de minha vida nos quais ganhei o suficiente para ajudar minha família a viver com dignidade. Investi bastante na família: construí a casa de Niterói, estruturei a Buriti Doce no que tem de básico. Agora, é à vera. Sem salário, vamos ter que tocar o projeto de forma que ele se sustente.
Isso dito, vou me referir a algumas questões imediatas, para me dar a chance de introduzir aos pedaços essa montanha excessiva de experiências internas, emocionais, afetivas, que me sequestraram nos últimos anos... ou sempre talvez?
A novidade é que escrevo em público. Um cyber público, que praticametne não existe, não ser que convocado, ou será "invocado" como se invocavam os Deuses no passado da antiguidade?
Então.... consegui, com muita luta, plantar 12 hectares de urucum e abacaxi na Buriti Doce. Deposi explico passo a passo como isso se deu. Por hoje vou deixar registrado que descobriram o fungo da fusariose, o pior de todos os males, nesse abacaxi plantado. O abacaxi que representou um endividamento muito desconfortável, em um momento muito delicado. Com isso, minha cabeça está, como se diz na minha terra, "na unha do pé". A sensação é a de condenação... lutei tanto, tano... e é possível que tenha sido tudo em vão. O dinheiro que talvez eu consiga com o maravilhoso arroz integral que colhemos, ao invés de ser um prêmio, algo a mais, servirá, quando muito, para que eu pague a dívida que ficou do plantio do abacaxi. E se perder o abacaxi, terá sido tudo em vão.
Em vão, o ano mais difícil de minha vida Mas agora não tenho energia para descrever tudo o que se passou. Só tenho a energia para dizer que fiquei muito abatida com isso.
Mas resolvi lutar. Ante-ontem me toquei que ao invés de sossobrar ao léu como uma madeira de naufrágio, vou lutar. Isso me deu energia para sair correndo pela cidade e pela inernet em busca de soluções aceitáveis para um projeto orgânico certificado, que não pode usar agrotóxicos.
É DESTE PONTO QUE ESSE BLOG NASCERÁ.
A Fazenda Buriti Doce é um projeto agroecológico...