quarta-feira, 30 de julho de 2008

a embalagem do arroz


Pra quem resolveu ser fazendeira porque detesta viver em um escritório, algumas notícias: Ser fazendeira envolve muiiiitttaaa burocracia! Estamos finalmente colocando o "bloco na rua", com nosso primeiro produto para a venda: as 5 toneladas de arroz integral! Olha como está ficando bonita a embalagem!

Enquanto meus amigos no Rio preparam a arte da embalagem, eu tive que correr atrás da classificação no Ministério de Agricultura (tipo, classe, subtipo, etc etc,) ler a legislação para saber quais as informações prtecisam ser incluídas, me registrar no GS1 para ter um código de barras... Isso depois de me registrar como produtora rural autônoma e passar por todo o processo de certificação orgânica.... Enfim... ter me mudado para Teresina onde moro em um loftzinho com banda larga e impressora 3 em 1, onde o celular pega, onde existem bancos... foi quase uma exigência da minha nova vida de fazendeira!

(Estou até gostando bastante. Os 10 meses que fiquei sozinha com o Seu Anísio na fazenda "deram". Mesmo sentindo a falta de estar mais próxima dos trabalhos, cansei de matar cobras e escorpiões sozinha a noite... e de atrasar contas por não ter telefone nem internet... Deu! Mas agora vou à fazenda de dois ou de três em três dias e fico lá nos finais de semana...)

Mas esta etapa está se concretizando. É complicado porque cada tipo de arroz tem que ter uma embalagem diferente pois as informações do Ministério têm de ser impressas, não podendo ser carimbadas... e as fábricas de embalagem só vendem quantidades monstras de sacos impresssos. Isso significa que um produtor precisa investir NO MÏNIMO 5 mil reais por TIPO de arroz antes de colocá-lo no mercado! Já imaginou quantos espíritos empreendedores não ficam caídos pelo caminho diante dese mercado construído para os grandes?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Estive na fazenda nos últimos dias, tentando reorganizar os trabalhos. Agora que o período mais intenso de trabalho terminou, estamos focando nas cercas que ainda faltam ser consertadas; nos aceiros (uma faixa de clareira contínua junto aos limites da fazenda para evitar que algum fogo de fora se alastre para dentro da fazenda) antes que cheguem as queimadas ... Mas tive que manter dois homens dos 10 que irão parar, construindo o galinheiro e para continuarem aspergindo os abacaxis com os extratos que estamos fabricando lá mesmo para resistirmos à fusariose.

Me reuni com Seu Anisio e os trabalhadores, com a assessoria de Luis Carlos, um jovem advogado amigo. Estamos finalmente formalizando as relações de trabalho com o pessoal. É justo, mas caríssimo. Dói pagar um INSS tão caro, sabendo que quem precisa desse serviço e dessa garantia social dificilmente terá um bom atendimento quando recorrer ao mesmo...

A maioria dos trabalhadores não entende porque quero fazer isso. Preferem trabalhar na diária. Esse universo dos benefícios sociais está distante deles. Deles todos, só um já teve carteira assinada há 20 anos atrás! Foi-lhes passado que quando se assina a carteira se dificulta a aposentadoria pelo sindicato! Imagine! Muito útil essa crença para os patrões... Mas dentro do nosso projeto precisamos estar com isso tudo em dia, tanto pelo selo de orgânico como pela coerência do que estamos propondo: promover o bem estar social através de relações de trabalho e comércio justas, em especial com a vizinhança.

Ficou acertado que Zé da Alda e Chico serão empregados com carteira assinada, e os outros terão contratos temporários nos períodos de mais trabalho. O Luís Carlos fez um excelente trabalho, me fornecendo modelos para diversas situações onde entro nesse tipo de relação com os trabalhadores.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A tal da fusariose

Depois de ter "movido montanhas" e ter superado tantas dificuldades no ano do Saturno... depois de ter gasto tudo o que juntei em anos de trabalho para plantar meus 10 hectares de urucum e abacaxi, surge a suspeita de que os abacaxis estão contaminados com o mais terrível dos fungos que atacam o abacaxi. Terá sido em vão?

Estamos às voltas com os preparos para tentar resistir ao ataque de fusariose. Já aplicamos mijo de vaca uma vez e encomendei mais... Para quem não sabe, o mijo da vaca leiteira é simplesmente um dos melhores fortificantes naturais para as plantas, e combate fungos. possui uma enormidade de minerais (N,P,Ca,Mg,S,Fe,Mn,Cu,Zn,B) e faz com que as frutas fiquem mais doces... Não é uma maravilha da natureza?

Agora vamos aplicar o extrato do barbatimão, planta que Seu Anísio detesta por ser tão nociva aos animais ruminantes. Acreditam que ela mata os animais porque suas sementes tem tamanho poder germinativo que nascem no estomago e intestino dos pobres, crescendo rapidamente?

Tenho tido um enorme suporte por parte de diversos cientistas amigos e interessados por toda a parte....Viva a internet! Essa receito do barbatimão, por exemplo, foi testada pela Embrapa do Rio Gde do Norte e eles afirmam que a eficácia, no experimento deles, foi idêntica à do produto industrializado, reduzindo a infestação à 7% no campo... então lutaremos!

Mas vamos também utilizar outros fungicidas naturais como a Lippia Sidoides, planta de estimação do meu grande e querido amigo, Professor Matos, da Universidade Federal do Ceará. Como ele a descobriu na natureza, essa planta parece ser sua... é um espécie de amor antigo, e as muitas utilidades que apresenta irão com certeza ganhar o mercado em grande escala, em breve. No ceará utilizam-na até para promover a assepsia em salas de cirurgia! Com isso, as múltiplas famrácias vivas que atendem à população pobre do Ceará, poupam muitos milhares de reais é, tanto para as cirurgias como para o tratamento de pequenas mazelas como o chulé, o cecê, a caspa... Enfim... temos uma receita da Lippia aplicada junto com manipueira, para combater a fusariose também. Os grandes laboratórios que se cuidem!

Agora pasmem... liguei pra quem me vendeu as mudas. Um senhor bastante honesto, religioso, pais de meu aluno na UEMA de Caxias... A minha proverbial capacidade de ler as pessoas não me engana. Esse homem é bom e honesto. Ele me diz que suas plantas NÃO ESTÃO CONTAMINADAS. O que isso significa? A moça da Embrapa, a fitopatologista, disse que identificou a fusariose... que só poderia vir de lá. Lá, as plantas estão saudáveis... Será que ela se enganou> Será que esse meu pânico é em vão?

Detesto isso. Me remete a algumas situações que já vivi junto com minha família, em especial minha mãe, que sempre que tem algum problema de saúde tende a consultar tantos médico que acabamos ficando perdidos, sem ter certeza de qual direção tomar... Acho que vou pedir para ela repetir o exame....

depois escrevo mais. Vou aprender a colocar fotos no blog também.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

tentando pegar o rítmo

Não tenho dúvidas de que chegou a hora de escrever... o ritmo do meu cotidiano continua louco demais, e não pego o ritmo da escritura... Mas estou pra estourar, e se não começar a escrever não sei onde vou encontrar a válvula de escape de que preciso agora...

Como tentar explicar o que estou vivendo? Como explicar que sou uma mulher carioca de 51 anos que se mudou para o Piauí, para tocar uma fazenda no interior do Maranhão...?? Larguei minha família linda. Que família linda, meu Deus.... A casa enorme e maravilhosa que construí em Niterói para viver com essa família linda... e vim tocar uma fazenda no Nordeste.

Não sou agrônoma. Sou antropóloga. Andei muito bem empregada até o mês passado... Fui consultora de uma empresa de cosméticos americana (Aveda) que me pagou para viajar pelo interior do Brasil e pesquisar matérias primas naturais que incorporasse em seus cosméticos. Com isso vivi os melhores anos de minha vida profissional... conheci a floresta acreana, trabalhei por dez anos com a tribo Yawanawá, com as quebradeiras de coco de Maranhào, com o Professor Matos no Ceará, que luta pela democratização da saúde no Brasil... Mas há 5 anos, a empresa foi vendida para uma multinacional americana, deixando de ser uma empresa familiar que pertencia a um homem - um amigo excêntrico em quem sempre confiei. Desde entào entrei em um processo de saída, de afastamento. Usei da flexibilidade e jeitinho brasileiro para nào sair, mas investindo bem pouco no trabalho. mas meu coraçào nào estava mais nesse emprego. Foi o aviso prévio mais longo de que tenho notícia! Uma acomodação das partes. Eles, sabendo da importância do trabalho que fiz para eles, foram me substituindo por partes, sem apelar para confrontações abertas, só me excluindo paulatinamente... Eu, fiz meus documentários, construí a estrutura básica da fazenda... Não tenho de forma alguma como reclamar. Aprendi muito, tive a oportunidade de encontar o meu destino através deste emprego. Conheci o Brasil. Conheci o movimento social. Pude contribuir com a luta de várias famílias por uma renda digna.

Foram anos de minha vida nos quais ganhei o suficiente para ajudar minha família a viver com dignidade. Investi bastante na família: construí a casa de Niterói, estruturei a Buriti Doce no que tem de básico. Agora, é à vera. Sem salário, vamos ter que tocar o projeto de forma que ele se sustente.

Isso dito, vou me referir a algumas questões imediatas, para me dar a chance de introduzir aos pedaços essa montanha excessiva de experiências internas, emocionais, afetivas, que me sequestraram nos últimos anos... ou sempre talvez?

A novidade é que escrevo em público. Um cyber público, que praticametne não existe, não ser que convocado, ou será "invocado" como se invocavam os Deuses no passado da antiguidade?

Então.... consegui, com muita luta, plantar 12 hectares de urucum e abacaxi na Buriti Doce. Deposi explico passo a passo como isso se deu. Por hoje vou deixar registrado que descobriram o fungo da fusariose, o pior de todos os males, nesse abacaxi plantado. O abacaxi que representou um endividamento muito desconfortável, em um momento muito delicado. Com isso, minha cabeça está, como se diz na minha terra, "na unha do pé". A sensação é a de condenação... lutei tanto, tano... e é possível que tenha sido tudo em vão. O dinheiro que talvez eu consiga com o maravilhoso arroz integral que colhemos, ao invés de ser um prêmio, algo a mais, servirá, quando muito, para que eu pague a dívida que ficou do plantio do abacaxi. E se perder o abacaxi, terá sido tudo em vão.

Em vão, o ano mais difícil de minha vida Mas agora não tenho energia para descrever tudo o que se passou. Só tenho a energia para dizer que fiquei muito abatida com isso.

Mas resolvi lutar. Ante-ontem me toquei que ao invés de sossobrar ao léu como uma madeira de naufrágio, vou lutar. Isso me deu energia para sair correndo pela cidade e pela inernet em busca de soluções aceitáveis para um projeto orgânico certificado, que não pode usar agrotóxicos.

É DESTE PONTO QUE ESSE BLOG NASCERÁ.

A Fazenda Buriti Doce é um projeto agroecológico...