sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Por que o buriti? 2


O buriti sempre me impressionou, durante as longas viagens de canoa pela amazônia ou pelo interior do nordeste, pelo porte majestoso, pela altura, pelo colorido espantoso dos frutos... Mas também existe alguma coisa de íntima na forma como as folha secas se acumulam em torno do tronco, sob a copa viva: pendões antigos, tranqüilos... É como a majestade de uma mulher velha, que retem sua feminilidade, sua força de rainha... E também há a relação de proximidade e dependência com a água, elemento que forjou a minha identidade de menina... eu "era" a água, diante dos oceanos das praias cariocas, dos riachos e cachoeiras cristalinas e frias da mata atlântica do meu Estado... As nuvens carinhosas que abraçavam os cumes das montanhas rochosas da Serra dos Órgãos eram finas e meigas como a minha sensibilidade e a chuva torrencial eram as minhas emoções fortes. Eu "era" a água, enquanto descobria quem era nessa terra de meu Deus!!!

Enfim... a palmeira do buriti existe onde existe água: brejo e rios. Também é chamada de miriti, e se espalhava por todo o país. É impressionante como predomina como nome de lugares (toponímia) no mapa não só do nordeste, mas de todo o Brasil: Buriti dos Lopes, Buriti de Sangue, canto do Buriti, Buriti Grande, São João de Meriti, etc., etc. Na Amazônia, está presente em todo "Igarapé preto" pois suas raízes tingem de preto e de vermelho profundo as águas onde moram. E os entendidos da região sempre sabem que onde há águas escuras estas são mais frescas e mais limpas do que as águas barrentas do resto dos rios. A pergunta que faço hoje em dia é: será que o biriti existe onde há água, ou há água onde há o buriti? Será que seu sistema radicular também ajuda a proteger os manaciais de alguma forma especial?

Tive o privilégio de acompanhar uma equipe de biólogos em uma longa viagem pelo entorno dos lençóis maranhenses, e colhi diversas entrevistas que indicavam que os buritis foram manejados, plantados por famílias que habitavam a região desde a seca cearense de 1912... usaram este dado como indicador de datação de presença humana para garantir a permanência destas família na terra durante a demarcação do Parque Nacional dos Lençóis. Casinhas totalmente feitas de talos e palha dessa palmeira... Um artesanato tradicional belíssimo que o SEBRAE agora se empenha diligentemente em "modernizar", transformando em atividade comercial... Da forma como se fazem os laudos antropológicos, o testemunho, a história levantada através dos depoimentos, servem como prova. Mas seja a distribuição do Buriti por todo país antropogênica ou não, temos essa palmeira rainha por todos os grotões brasileiros...

Agora... esses frutos possuem uma camada fina de mesocarpo (polpa) que a população local raspa em agradáveis mutirões de muita conversa, nos meses de chuva... essa polpa possui o mais alto conteúdo de pró-vitamina A encontrado na natureza(18.339 microgramas de retinol por 100 gr de óleo). Também é muito rico em vitamina E, C, B1, B2 e PP antioxidantes, etc. Seus ácidos graxos tem alto teor de ácidos oleicos e insaturados, tocoferóis e carotenos que são responsáveis por sua cor avermelhada.

A indústria cosmética se interessa por este óleo. Eu fui vagarosamente criando uma rede de fornecedores de polpa no entorno da fazenda, e formamos um grupo que foi certificado como orgânico após diversas viagens à área pelos inspetores do Instituto Biodinâmico de Botucatu. Aos poucos, vou organizando o meu negócio para ver se consigo atingir a auto-sustentabilidade da propriedade. Por enquanto, ainda não deu!

vou pra fazenda!!!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Porque o Buriti????

Trabalhei durante catorze anos com a Aveda Corporation, fábrica de alguns dos melhores cosméticos do mundo, baseados em plantas, ecologicamente corretos... muito legal mesmo. Foi realmente a melhor experiência profissional que tive na minha vida. Viajei pela amazônia, sobrevoei as copas da floresta acreana... convivi com pajés, adquiri enorme respeito pelo povo Yawanawá... fiz grandes amigos, viagens internacionais... Foi muito bom. Pude ajudar muitas comunidades, abrir portas para muita gente, e exercer alguns dos meus talentos, tais como a energia que tenho pra fazer projetos andarem... Na realidade, a maioria dos talentos que tenho advém das coisas que aprendi fazendo cinema - disciplina, organização, planejamento - e da disposição que sempre tive para andar e apreciar o mato, as coisas da natureza, e as pessoas que vivem em contato direto com ela.

Esse meu trabalho envolvia tanto a procura de novos ingredientes para os produtos da empresa, quanto o estudo das dificuldades que as comunidades tinham em colocar estes produtos no mercado devido aos gargalos da produção em massa, industrializada, com todas as armadilhas que fazem com que os lucros fiquem na mão de intermediários, etc... Dessa forma, eu articulava comunidades com institutos de pesquisa e outras empresas, órgãos do governo, ONGs, etc.

Em 2001 a empresa foi vendida para uma multinacional, e eu passei a me reportar a uma americana ecologista cuja experiência se limitava à prefeitura de St. Paul em funções burocráticas. Essa moça, ou qualquer outra pessoa de nacionalidade americana, teria ficado muito famosa e rica na América se fizesse um trabalho parecido com o meu, em contato direto com as comunidades indígenas, etc. Isso gerou uma ciumeira danada, e eu confesso que não fui muito sábia: mesmo tendo ganho algumas vitórias iniciais, vivi até 2008 com uma pessoa sempre disposta a me derrubar na empresa. Uma boa lição essa: a única verdadeira vitória é aquela que acaba com o conflito... ganhar uma batalha não é vitória nenhuma...

Essa senhora ajudou a desestabilizar a liderança da tribo de índios para a qual eu trabalhava como forma de tentar "seqüestrar o nó da rede". Conseguiu substituir a liderança e eu me afastei de um projeto com a tribo indígena no qual eu trabalhei durante 10 anos. A mais difícil das minhas atribuições era ser uma espécie de bucha de canhão: por um lado evitar que a pressão política dos índios sobre a liderança forçasse as mesmas a utilizarem os recursos do projeto de forma diferente do que estava previsto pelas rubricas do projeto, ou seja, proteger o protejo. Por outro lado, quanto mais eu conhecia e aprendia sobre a tribo, mais percebia que haviam diferentes interesses em jogo dentro da aldeia, e havia opressão da elite sobre os mais pobres e fracos, e que o cacique tinha a difícil tarefa de equilibrar isso. Com a minha saída, a relação com a tribo ficou sem essa intermediação. O novo líder passou a fazer o que queria com os recursos e se transformou em uma espécie de déspota grotesco, dono da relação com a empresa americana, canalizando todos os recursos para o seu grupo... enfim. Essa outra longa história encontrará outra forma de expressão algum dia!

Levou 7 anos para que a moça conseguisse fazer com que a empresa me despedisse, e quando isso acabou acontecendo, ela, ironicamente, já se fora, despedida por ser meio conflituosa! Recebi uma espécia de aviso prévio de 4 anos, e me transformei, aos poucos, de consultora para fornecedora da empresa. Como eu sabia que havia uma demanda por óleo de buriti, procurei uma área onde pudesse produzir esse óleo. Cheguei a visitar áreas mais belas e charmosas como Barreirinhas, Parnaíba, etc. Mas acabei optando pela área que apresentava as facilidades administrativas: asfalto perto, proximidade com Teresina, etc.

Na verdade, a terra é que me encontrou. Eu vinha procurando tanto, tanto! Tinha viajado pelo interior do Piauí, procurado no litoral... De repente, um dia, vindo do trabalho com as quebradeiras de coco, passei pelo Brejinho e vi a placa de "vende-se". Estava com o Ronaldo, técnico agrícola da melhor qualidade, ligado ao Movimento, apesar de já ter estado na área com um amigo de Teresina. Mas foi com o Ronaldo que descobri o Buriti Doce, ou melhor, que o Buriti Doce me descobriu!
Caiu na minha cabeça... perfeita, com tudo o que eu queria: muito buriti, muita mata, e - eu nem sabia! - tinha também a capela abandonada em cima do morro!Acho, honestamente, que a terra foi me construindo de longe, malhando o ferro para ajustá-lo ao grito de ajuda que lançava, silenciosa, ao ar, enquanto um herdeiro bobo a abria aos lenhadores predatórios que devoravam tudo o que viam pela frente, para vender o metro cúbico de madeira a preço vil para olarias e padarias... Enfim, eu estou aqui! Com muitas saudades das florestas do Acre, mas aqui estou!