
A seca, o vento, o fogo, a cajuína
Nestes meses terríveis de seca, o vento bate forte na região... Já tinha ouvido algumas lindas músicas de Roraima em homenagem ao vento que varre a cidade de Teresina, e já tinha me encantado com a ventania incessante nos apartamentos altos do bairro da ilhotas. O que mainda resta de "estrutural-funcionalista" nessa mente velha já tinha até começado a buscar alguma ordem dentro d
o sistema ecológico, alguma sutil e sublime sabedoria que refresca a alma do homem do sertão justo-quando-ele-mais-precisa...Mas pra falar a verdade, no ano passado, quando morava sozinha com seu Anísio na Buriti Doce, percebi o vento como uma força da natureza tão presente e terrível como o mar de Saquarema em minha meninice. Eu olhava, através da janela do carro em minhas constantes viagens para dar aulas em Caxias, para aquele chão tórrido das áreas devastadas ao longo da estrada, e me lembrava das imagens feias da região no Google maps... terra nua, tudo torrado, pela prática das queimadas locais. Tudo queimado, nu, incinerado como um cinzeiro velho.
E o vento? O sol esturrica o chão quente que desloca o ar para cima. Eolo se inflama com aquele calor todo, se infla, estoura com a pressão que acumula. Aponta de volta para a terra e para os míseros e mínimos homens a produzir tanta quentura, a lutar para apagar o fogo das roças vizinhas que se espalha bandido pela mata que tentamos preservar. Aponta e sopra de volta com força, arrastando as labaredas por entre os galhos finos e esquálidos, castigando as plantas que "hibernam", vegetando com o mínimo de energia gasta possível, a espera da primeira gota de chuva que beberão sequiosas... O fogo resseca mais ainda o solo esturricado
pelo sol.O vento, nessa época do ano, é o general das forças inimigas daqueles que lutam contra os incêndios fujões. Na queimada bandida que levamos 5 dias para apagar na Buriti Doce em setembro de 2007, era com o vento que os homens pelejavam. Apagavam as chamas, e o vento as reaviva, impiedoso. Não adiantava lutar contra ele das 10 às 16 horas do dia. Nessas horas, a terra esturricada pelo sol, atiçava o vento, que atiçava as labaredas do fogo inimigo.
Apenas às 4 da tarde era que ele parecia se amenizar, e os homens - meus empregados e voluntários vizinhos que largavam seus afazeres por essa hora do dia para virem, silenciosos, colaborar conosco - conseguiam abafar as chamas com grandes folhas de babaçu. Trabalhavam calados, em duplas. O velho Anísio, grande guerreiro, orientando-os, mandando algumas duplas atacarem por um lado enquanto outras cercavam aquele foco de incêndio pelo outro lado. Em algumas situações, até acendiam um contra-fogo que era sugado pelas labaredas maiores e atraído em sua direção justamente por essa força do vácuo que o fogo cria na medida em que o calor se desloca para cima. As chamas do contrafogo correndo na direção do incêndio principal, dava cabo da vegetação no percurso que alimentaria o fogo principal, estrangulando-o com esperteza.
Vento, diga por favor... aonde se escondeu o me amor...

Eu chorei muito. Aliás, desde que vim apra essa terra - ou até antes, quando comecei a me envolver com o Piauí - 'o que mais tenho feito. Virei uma chorona! Mas chorei muito ao ver esse incêndio de cinco dias lamber a área onde havíamos plantado tantos cedros, ipês, angicos... Foram dois anos e meio plantando árvores, para um babaca que arrenda as terras vizinhas às minhas para colocar o gado de terceiros pôr fogo para "renovar a pastagem". Não dá nem para começar a avaliar o prejuízo. Muitas das árvores sobreviveram, mas nunca saberemos quantas morrerão. Sei exatamente quantas foram plantadas naquel área... mais de 4 mil!
Subi na igrejinha em cima do morro, e de lá via a fumaça. Confesso que chorei, e muuuuuito.
Nesse momento eu pensei na dureza que tem sido esse afastamento de todos a quem amo tanto, meus filhos, netos, mãe doente, avó velhinha... Essa sensação de estar sendo esnobada pelas pessoas que conhecia em Teresina e que eram tão hospitaleiras antes de eu me mudar pra cá! A pele que se resseca e enruga tão ligeiro nesse clima. Foi duro encarar esse incêndio.Depois um aluno meu da faculdade de istória em Caxias, policial, veio com um companheiro investigar o crime. Fomos visitar alguns caçadores e criadores vizinhos. Eu morando sozinha na Buriti Doce, dormindo só à noite, e tendo que peitar esses cabras machos. Tudo muito educadinho, gentil, delicadinha. Mas avisando que ia avaliar o tamanho do meu prejuízo e que se acontecesse de novo ia partir pra processo e tudo o mais.
Enfim, isso foi ano passado. Agora, os cajus estão lindos, pelo Piauí todo. Ganhamos um edital para estudar a cajuína, e como o contrato foi fechado em plena safra, tive que sair desabalada, filmando enquanto ainda havia cajuína sendo feita. Foi um mês de trabalho intenso, e muitas descobertas da beleza do capricho cristalino da alma cuidadosa dos piauienses... Bem bacana... só que o tempo que eu tinha para contar essa história, gastei ao telefone com minha filhota agora! Vai ter que ficar para depois.
