Fico me lembrando das noções que a Zezé (Maria José Carneiro da Cunha, minha doce orientadora de doutorado) nos passava sobre os neo-rurais... somos uma nova categoria de gente urbana que ocupa os sítios das serras fluminenses com nosso charme culto e refinamento dos que abandonam a urbe em busca de qualidade de vida, com nossas chiquérrimas aposentadorias ou orientações do Sebrae para abrirmos pousadas... muitas vezes cagando regras aos nativos (me lembro dos surfistas de Saquarema apelidando-os de "minhocas da terra"), comprando suas terras a preço de banana e ensinado-os tudo o que precisam saber sobre o meio-ambiente, importando novas regulações, condenando práticas tradicionais do manejo da terra, da água, do mar... É claro que não é bem assim que a mestrinha colocava, mas... haja conflito nessa paz ue todos buscam!
Podemos usar a imaginação, aumentando o quandro com uma lente invisível e onipotente que se inicia nas terras fluminenses, se afastando cada vez mais, e observando esse movimento de ocupação dos espaços contíguos às cidades por pessoas que - de tão inseridas na modernidade - viram uma espécie de pioneiras de um novo ciclo: se afastam de suas mazelas, carregando consigo todo o instrumental ultra-moderno da conexão em rede, do acesso à informação, às instituições, à rede de contatos... novos condomínios surgem, novos enclaves industriais em meio ao campo, Paulíneas em toda a parte... se conectam em rede.
Então, eu sou uma neo-rual como tantas outras. Só que em vez de estar nas serras de Teresópolis ou de Miguel Pereira, estou no Maranhão, nas proximidades do Piauí. Com toda a dificuldade que tive até o momento para instalar a antena do celular na Buriti Doce, já possuo uma antena parabólica que me liga aos canais da Sat, já estou empregada pela metade na Universidade Federal do Piauí, com uma bolsa do CNPq... Estou trazendo um instrumental novo, noções de manejo diferentes para o torrão que adquiri por aqui. E meu Mestre, o velho e já muito amigo Seu Anísio, se transforma em um contraponto fantástico, uma espécie de termômetro do tamanho da minha intromissão, a cada vez que este reage contra essas intromissões...
O galinheiro é apenas uma delas. Afinal, Seu Anisio sempre adorou criar galinhas e suas galinhas animam e enfeitam o terreiro e a vida do "meu velho" que está acostumado a viver "todo-só", como dizem os franceses, naquela lonjura. O velho Anísio reclamou, esperneou, ameaçou até ir embora, na medida em que começamos a implementar um galinheiro "racional" de galinhas caipiras. Afinal, como uma propriedade orgânica, eu preciso ter meu próprio cocô disponível e parar de importar palha de arroz misturada com urina e com esterco dos postos onde os caminhões efetuam lavagens...Assim, depois de abrir as roças do ano passado, com todo aquele sacrifício, pus os homens a limpar uma velha tapera (casa abandonada) ao lado da minha quinta (casa com árvores). Erguemos, sem muita dificuldade, o galinheiro de acordo com as prescrições do simpático Dr Firmino da Embrapa, que já apresentei em outra postagem... Funciona, mas como tudo o mais que acontece na fazenda do mundo real: escapa aos cálculos racionalmente dispostos no papel e só se concretiza com muita persistência e um bocado de sinergia. Isso significa que estamos faturando um pouco mais do que gastamos, já que não tivemos um número grande de matrizes logo no início, não tivemos dinheiro para comprar nossa própria incubadeira até agora, e ainda estamos perdendo MUITOS pintos dos que compramos prontos enquanto não temos uma quantidade suficiente dos nossos...
Para o seu Anísio, criar galinhas trancadas daquele jeito não é nada ecológico. O bonito mesmo é criar solto no terreiro para que elas tenham sua vida em família... Nós colocamos cada idade em seu respectivo pedaço do galinheiro para que comam a ração adequada e cresçam, em 4 meses, o que no terreiro levariam 1 ano para crescer. Mas sã
Seu Anísio quase vai embora por causa desse galinheiro. Eu falei que ele continuasse a criar as dele fora, que seria tudo igual. Ele inventou uma alergia à palha de arroz de dentro do galinheiro, ficou brabo porque eu vivo contando a s galinhas como se não confiasse nele, como se desconfiasse da proverbial honestidade e palavra dos encarregados tradicionais das fazendas nordestinas. Ah, seu Anísio, sábio velho. Eu precisando muuuiiiiitto desse dinheiro. O galinheiro sendo a primeira coisa que dá alguma renda e não apenas despesa, nessa etapa que estamos atravessando...
E eu trago os ovos que as matrizes começaram a pôr em janeiro, levo para a Embrapa toda terça feira, e colocamos na incubadeira que Firmino me empresta graciosamente... os pintinhos levam exatos 21 dias para nascer, e os capotes (galinhas da angola) levam 28 dias. Quando nasce uma leva, trago em uma caixa de papelão, onde adaptamos uma lâmpada de 40 watts, água e ração, onde aquele grupo de pintinhos sobrevive sua primeira semaninha de vida, se aconchegando em torno do calor da luzinha. Os lindinhos, fofinhos, amarelinhos, logo começam a demonstrar a diferenciação, na medida em que algum machinho passa a bater nos outros para mostrar quem manda. Bate gratuitamente. Bate para se impôr. Quando se mistura capotinho com pintinho então, é de se admirar a persistência com a qual o capotinho bica os pezinhos dos outros, obsessivo, mostrando quem domina a comida e a área.
Daí colocamos esses pintinhos no compartimento dos pequeninhos. E daí descubro que as galinhas formam comunidades políticas, sem sombra de dúvida. Depois que esse grupo está formado, quando tento incorporar novos elementos a ele, isso não acontece impunemente. O pobre apanha. E se estiver aleijado e doente, apanha mais ainda! Quando jogamos um pedacinho de barbante, começam uma brincadeira louca, competindo por aquela coisa nova e estranha de um lado para o outro, afoitos e aflitos, heróicos e atléticos. Competem entre si, bastante.
Aos 30 dias, são colocados em um novo compartimento, com um piquete maior onde pegam sol e ciscam a terra. Já estão rapazinhos e mocinhas. Mas qual o quê! Pergunte se eles se conformam com a mudança? Ficam tentando retornar ao compartimento anterior porque formam uma identidade com aquele lugar, um senso de pertencimento... Nesse novo espaço onde ficam 30 dias também, comem uma ração com um pouco mais de óleo para crescer e engordar mais.
No final desses segundos 30 dias, são adolescentes, prontos para integrarem a área central. Lá, coitadas das galinhas jovens! As mais velhas se enciumam, os galos só querem saber da carne fresca! Nessa área com
Ah, as galinhas que por algum motivo não crescem, ou capengam... Como sofrem! Todo o amor que seu Anísio tem pelos bichos aleijados não é acompanhado pela ferocidade dos fortes no galinheiro.
Eu tenho dificuldade em convencer ao Max, menino que trabalha comigo na produtora e na fazenda de quebra, que os galos tem que ir embora rápido, pois mais de 1 macho no terreiro é briga na certa! Ele parece vê-los como propagadores da qualidade da raça, uma espécie de tesouro. Mas geralmente os frangos vão pra panela logo. Uma outra alternativa dos locais é escolher o melhor galo, e capar os outros. Os capados crescem fortes e gordos, atingem um ótimo preço no mercado. Mas se não forem capados, a vida no terreiro vira um inferno, a hostilidade é constante, os machos se machucam. Lá fora, no terreiro, quando há excessos, temos galos invadindo outras praias, como as das capotas e peruas! Daí a briga é feia mesmo.
Na área das poedeiras, as bichinhas precisam pôr seus ovos para que eu os leve para a incubadeira da Embrapa. O normal é que elas ponham ovos durante 21 dias e depois ficam chocas, se
O problema NÃO é do sistema que o Firmino criou, mas do fato que ainda não encontramos o caminho para manejar essa maternidade. Agora que existem alguns pintos "família"no meio das matrizes, eu estou com o coração aflito em pensar em separar os pintinho que tem mãe para coloca-los junto aos que vieram da chocadeira! Mas se não fizer isso elas não voltam a pôr, pôr, pôr sem parar, incessantemente, produtivamente (do jeito que precisamos que ponham para pagar as contas)... Assim, decidimos voltar à rotina de transportar ovos para a Embrapa toda semana e levar pintinhos de volta para a fazenda.
E na hora de apurar? Apurar, na linguagem do seu Anísio, é vender o fruto do nosso esforço. Entro na área cercada do galinheiro, Senhora de tudo, com alguns homens. As galinhas, inicialmente
pensam que estou indo jogar as folhas verdes de milhos que plantamos especialmente para elas, nos 20 pneus que guardamos em uma área especial. Se aproximam vorazes. Mas agora eu sou a Senhora da Morte... (riso de bruxa tenebroso riscando o ar da noite gélida)... Cercamos as galinhas e as tangemos para dentro do galinheiro. Daí começamos a escolher as mais pesadas, que são levadas para a cozinha do Seu Anísio onde um panelão de água já esquenta no fogão de lenha e... créu, Socorro lhes passa a faca... Recentemente tenho me poupado de fazer o papel da Senhora da morte, e peço ao Max que escolha as galinhas para mim. Não quero entrar no galinheiro para escolher quem vai morrer! Elas confiam em mim desde novinhas!Nos últimos tempos tenho estado tão dura, que mesmo sabendo que estou gastando bastante de ração (o nosso milho do ano passado acabou e estou tendo que comprar), trago 10 galinhas por semana para vender em Teresina, e esse é o dinheiro da semana. É do que como e às vezes dá pra pagar alguma conta pequena também! (Me lembro de minha mãe balançando a cabeça em reprovação... "estudou tanto!").
Em verdade , em verdade vos digo. Com todo esse aprendizado que essa neo-rural está adquirindo com essas penosas criaturas, vejo o quanto Seu Anísio está certo em condenar a modernidade
com a qual estou aplicando os princípios de racionalidade ao ciclo da vida das galinhas caipiras. Mas não só preciso que a fazenda dê algum dinheiro, como ao vender essas galinhas e formar a nossa primeira freguesia, sinto que o trabalho é honesto, muito honesto. Mesmo com o sacrifício das bichinhas, sinto que estou produzindo comida com honestidade. Mais do que qualquer outra atividade burocrática, pedagógica ou artística que eu desenvolvo.É uma alegria vender duas galinhas para a cabeleireira aqui do lado ou pra colega antropóloga! Uma alegria formar minha freguesia aqui na vizinhança da produtora em Teresina. Salve o amor que o povo Teresinense tem pela galinha caipira no domingo! Salve, Salve!

Nenhum comentário:
Postar um comentário