Trabalhei durante catorze anos com a Aveda Corporation, fábrica de alguns dos melhores cosméticos do mundo, baseados em plantas, ecologicamente corretos... muito legal mesmo. Foi realmente a melhor experiência profissional que tive na minha vida. Viajei pela amazônia, sobrevoei as copas da floresta acreana... convivi com pajés, adquiri enorme respeito pelo povo Yawanawá... fiz grandes amigos, viagens internacionais... Foi muito bom. Pude ajudar muitas comunidades, abrir portas para muita gente, e exercer alguns dos meus talentos, tais como a energia que tenho pra fazer projetos andarem... Na realidade, a maioria dos talentos que tenho advém das coisas que aprendi fazendo cinema - disciplina, organização, planejamento - e da disposição que sempre tive para andar e apreciar o mato, as coisas da natureza, e as pessoas que vivem em contato direto com ela. Esse meu trabalho envolvia tanto a procura de novos ingredientes para os produtos da empresa, quanto o estudo das dificuldades que as comunidades tinham em colocar estes produtos no mercado devido aos gargalos da produção em massa, industrializada, com todas as armadilhas que fazem com que os lucros fiquem na mão de intermediários, etc... Dessa forma, eu articulava comunidades com institutos de pesquisa e outras empresas, órgãos do governo, ONGs, etc.
Em 2001 a empresa foi vendida para uma multinacional, e eu passei a me reportar a uma americana ecologista cuja experiência se limitava à prefeitura de St. Paul em funções burocráticas. Essa moça, ou qualquer outra pessoa de nacionalidade americana, teria ficado muito famosa e rica na América se fizesse um trabalho parecido com o meu, em contato direto com as comunidades indígenas, etc. Isso gerou uma ciumeira danada, e eu confesso que não fui muito sábia: mesmo tendo ganho algumas vitórias iniciais, vivi até 2008 com uma pessoa sempre disposta a me derrubar na empresa. Uma boa lição essa: a única verdadeira vitória é aquela que acaba com o conflito... ganhar uma batalha não é vitória nenhuma...
Essa senhora ajudou a desestabilizar a liderança da tribo de índios para a qual eu trabalhava como forma de tentar "seqüestrar o nó da rede". Conseguiu substituir a liderança e eu me afastei de um projeto com a tribo indígena no qual eu trabalhei durante 10 anos. A mais difícil das minhas atribuições era ser uma espécie de bucha de canhão: por um lado evitar que a pressão política dos índios sobre a liderança forçasse as mesmas a utilizarem os recursos do projeto de forma diferente do que estava previsto pelas rubricas do projeto, ou seja, proteger o protejo. Por outro lado, quanto mais eu conhecia e aprendia sobre a tribo, mais percebia que haviam diferentes interesses em jogo dentro da aldeia, e havia opressão da elite sobre os mais pobres e fracos, e que o cacique tinha a difícil tarefa de equilibrar isso. Com a minha saída, a relação com a tribo ficou sem essa intermediação. O novo líder passou a fazer o que queria com os recursos e se transformou em uma espécie de déspota grotesco, dono da relação com a empresa americana, canalizando todos os recursos para o seu grupo... enfim. Essa outra longa história encontrará outra forma de expressão algum dia!
Levou 7 anos para que a moça conseguisse fazer com que a empresa me despedisse, e quando isso acabou acontecendo, ela, ironicamente, já se fora, despedida por ser meio conflituosa! Recebi uma espécia de aviso prévio de 4 anos, e me transformei, aos poucos, de consultora para fornecedora da empresa. Como eu sabia que havia uma demanda por óleo de buriti, procurei uma área onde pudesse produzir esse óleo. Cheguei a visitar áreas mais belas e charmosas como Barreirinhas, Parnaíba, etc. Mas acabei optando pela área que apresentava as facilidades administrativas: asfalto perto, proximidade com Teresina, etc.
Na verdade, a terra é que me encontrou. Eu vinha procurando tanto, tanto! Tinha viajado pelo interior do Piauí, procurado no litoral... De repente, um dia, vindo do trabalho com as quebradeiras de coco, passei pelo Brejinho e vi a placa de "vende-se". Estava com o Ronaldo, técnico agrícola da melhor qualidade, ligado ao Movimento, apesar de já ter estado na área com um amigo de Teresina. Mas foi com o Ronaldo que descobri o Buriti Doce, ou melhor, que o Buriti Doce me descobriu!
Caiu na minha cabeça... perfeita, com tudo o que eu queria: muito buriti, muita mata, e - eu nem sabia! - tinha também a capela abandonada em cima do morro!

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